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Disfunção Executiva: o preconceito vem até de quem amamos



"Livrei a sua cara com a sua doutora hoje". Essa foi a frase que o meu marido disse depois de ter uma conversa com minha neuropsicóloga. E perguntei "Como assim? O que aconteceu?". Ele então me respondeu "Ela me perguntou se eu precisava te mandar tomar banho e eu disse que não". Questionei então o motivo de ele não ter contado a verdade: que em algumas vezes ele precisa sim me lembrar de tomar banho, porque eu simplesmente vou fazer outras coisas, como lavar louça, fazer comida, ver uma série com ele e, por estar cansada, deito no sofá e durmo, acordando desorientada e sem lembrar que preciso tomar banho antes de dormir. E ele me respondeu "Para quê? Para ela pensar que você é porca?".

A grande questão é que não é um caso de "porcaria". Pessoas autistas têm um problema chamado disfunção executiva. As funções executivas são aquelas que nos ajudam a tomar decisões, ter noção de timing, flexibilidade para mudanças e autocontrole. Mas, quando existe falha nessa estrutura e dificuldades de planejamento e realização das atividades, temos a disfunção executiva.

Ela tem ligação direta com comportamentos repetitivos, os interesses restritos, a desatenção, a dificuldade com a realização de atos que envolvam uma sequência de mudança, flexibilidade (comportamentos perseverativos) e planejamento que estão presentes em pessoas no espectro.

Por conta desses déficits cognitivos, os autistas, muitas vezes, não conseguem executar ações da vida diária, como tomar banho, limpar o quarto, entre outras coisas. (Fonte: genialcare).

Então não é que eu simplesmente seja porca e não goste de banho ou de escovar os dentes. É que às vezes eu só me esqueço que preciso executar esse tipo de tarefa. E, aliada à sensibilidade sensorial - que me faz detestar a ardência da pasta de dente comum, enjoar do sabor de menta ou sentir um frio de doer a pele ao tomar banho quando faz menos de 22ºC no clima - às vezes meu cérebro só me faz ignorar a necessidade dessas tarefas básicas.

E é muito difícil quando a pessoa que você ama e que também te ama não enxerga esse tipo de dificuldade. Ele achou mais sensato encobrir isso no questionário do que entender que isso também faz parte do transtorno do espectro autista.

Eu tenho muita dificuldade em lembrar de beber água e de ir fazer xixi. Pelo simples fato que quase não sinto sede e que meu organismo se acostumou a só me lembrar do xixi quando estou no meu limite. Se eu estiver hiperfocada em alguma atividade então, aí mesmo que não me lembro dessas tarefas básicas. 

Mas meu marido achou que deveria dizer à neuropsicóloga que eu consigo beber água normalmente, afinal, eu ponho até um aplicativo com alarmes para me lembrar de beber água. E eu  esqueço de fazer xixi e ele precisa me lembrar que estou o dia todo sem ir ao banheiro quando estou concentrada em alguma atividade que gosto...

Uma das partes mais difíceis para mim tem sido lidar com o fato de que ele continua em negação do meu diagnóstico, achando que tudo o que eu faço é "normal" porque ele também faz... 🤡 Estão vendo onde isso vai chegar, né?

Esse post é só para lembrar aos familiares e amigos das pessoas autistas que vocês precisam apoiar as pessoas com TEA nas suas vidas. Reconhecer as dificuldades delas e ajudá-las, sem ter vergonha de falar sobre isso. As pessoas autistas não são preguiçosas, porcas, procrastinadoras, desastradas... Elas têm disfunção executiva, que é inerente ao TEA. Aprendam a lidar com isso e a ajudar essas pessoas a lidarem com isso sem se sentirem inferiores, fracassadas ou qualquer coisa do tipo, por favor. Precisamos do suporte de vocês!

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