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Diário de uma autista recém diagnosticada


Então é isso: eu sou autista. Nunca três palavras tiveram tanto peso e bagunçaram tanto a minha cabeça. Neste momento, estou com 36 anos e acabei de receber o diagnóstico depois de uma avaliação neuropsicológica. Pois é... 

Nem eu sei muito bem o que estou fazendo aqui. Até porque, em 2024, quem ainda escreve em um blog, não é mesmo? Agindo tal qual os Incas, Maias, Astecas... Ou millenials, que é precisamente o que sou. Mas por recomendação da minha psicóloga, resolvi escrever sobre os meus sentimentos em relação a essa descoberta. E como não sei se estou realmente preparada para me expor ao mundo sobre esse assunto nas redes sociais que exigem vídeos e dancinhas, vim escrever aqui porque... bem... ninguém deve ler mesmo rs. Já não liam meus posts quando eu tentava ser blogueira na época em que a internet era "tudo mato", não é agora que vou bombar na blogosfera (que está morta rs).

Se tem alguém lendo isso, você pode estar se perguntando: "Mas por que, afinal, você foi fazer uma avaliação neuropsicológica e acabou descobrindo que é autista a essa altura da vida?". Bem, caro(a) leitor(a) imaginário(a), vamos fazer tal qual o Jack Estripador e ir por partes (credo, porém ba dum tsss).

Eu sempre fui uma pessoa peculiar. Sou filha única e, quando criança, passava muito tempo sozinha. Meus pais sempre estimularam em mim o gosto pela leitura e pela escrita. Ainda muito pequena, me apaixonei pelos livros e, com uma imaginação extremamente aguçada, eu os usava para me transportar para lugares mágicos. Passava horas com o nariz enfiado em um livro. Hoje entendo que eles foram meu primeiro e mais duradouro (dura até hoje) hiperfoco. Como sempre tive uma alta habilidade em ler e escrever, aprendi a falar muito bem e muito cedo. Era aquela criança precoce, que encantava a todos com a minha eloquência. Até o momento em que fazia uma pergunta ou um comentário completamente inadequado... "Aahh, isso é coisa de criança, é assim mesmo", as pessoas diziam, entre risadas nervosas e desconfortáveis, para os meus pais mortificados de vergonha. 

Fui crescendo, sempre eloquente, metida a sabichona, inegavelmente inteligente, mas com muita dificuldade em entender o "bom senso", as ironias, sarcasmos, metáforas. Não entendia a necessidade das "mentirinhas sociais" e o porquê de serem importantes, se "mentir era errado". Se é errado, como pode ser certa e necessária em alguns momentos? E nessas nuances, a "coisa de criança" se transformou em "tão inteligente, mas tão chatinha, né?". De chatinha, fui crescendo e começando a ser considerada sem educação, grossa, metida, sem noção... É, a delicadeza é destinada apenas às crianças pequenas. Não importa se você ainda não entende o motivo de ser direta e falar a verdade ser considerado grosseria. 

Comecei a entender que a forma como eu pensava, agia ou falava não era considerada adequada. Que as "mocinhas boazinhas" eram as que usavam vestido, sentavam direito, olhavam nos olhos numa conversa, prestavam atenção (não importa o quão chata estivesse a conversa), não faziam perguntas embaraçosas nem questionavam as ordens que não faziam sentido. Que sorriam e queriam ser bailarinas. Então eu comecei a imitar essas meninas. Via como elas agiam, falavam, como sorriam, como sentiam vergonha e faziam biquinhos. E comecei a fazer as mesmas coisas. Mas mesmo fazendo as mesmas coisas, parecia que eu nunca conseguia imitá-las com perfeição. E isso sempre causou uma estranheza em como as pessoas me enxergavam.

Conforme continuei crescendo, aprendi a usar o humor como mecanismo de defesa e de inclusão social. Afinal, as pessoas gostam de rir, certo? Então era melhor aprender a fazê-las rir comigo, do que de mim. Me tornei a amiga engraçada. A que faz piada com tudo. Me esforcei para aprender a arte do sarcasmo e do deboche (a da ironia ainda é uma casca de banana na qual escorrego de vez em quando). Comecei a fazer o tipo de humor ácido em que a sociedade se delicia (quando não é o alvo desse humor).

Fui amadurecendo e me forçando a caber nesse molde, nesse papel, para ser aceita em sociedade. Não importava que a cada rodada de interação, happy hour, eu saísse esgotada. Não importava que eu odiasse lugares lotados, com som alto e fedor de cigarro, bebida velha e xixi nos banheiros sujos. Se todo mundo parecia feliz e confortável nessas situações, eu precisava me sentir assim também, afinal eu era igual a todos, certo? Todos deveriam sentir desconforto também, mas isso era o normal. E eu precisava ser normal como todos, certo?

Errado... eu me forcei durante anos, me agredi quando o som parecia doer fisicamente em meus ouvidos. Quando os cheiros embrulhavam meu estômago. Quando aceitava abraços e toques que eu não queria, de pessoas com as quais não tinha intimidade, porque era o que as outras pessoas faziam. Eu me esforcei durante décadas para me comportar como todas as demais pessoas, mas sempre com a sensação lá no fundo de que não era possível que todos sentissem o mesmo que eu e estivessem vivendo a vida de forma tão leve e tranquila. Se para mim, era um martírio acordar todos os dias e lidar com excesso de luminosidade, barulho, cheiro, toques e multidões. Se eu saía de casa todo dia cansada e voltava exausta. Como as pessoas eram felizes com esse excesso de estímulos sem querer socar a cara uma das outras?

A cada dia, o esforço para manter a máscara de "mulher divertida, bem resolvida, forte, guerreira, que dá conta de tudo, competente" era maior. A máscara foi rachando dia a dia. As pessoas mais próximas de mim começaram a sentir meu excesso de irritação, a facilidade com que eu ia de 0 a 100 em minutos. Num momento, estava rindo e fazendo piada. No outro, explodia em raiva e gritos por "um motivo bobo qualquer". Mas para mim, não eram bobos. Racionalmente até poderiam ser bobos. Mas emocionalmente, eram a gota d'água. E quando um copo está cheio demais, qualquer gota pode causar o transbordamento. Eu ouvi de uma amiga que parecia que existiam duas de mim e que ela nunca sabia com qual delas estava lidando e quando a outra poderia aparecer do nada.

Comecei a me tornar insuportável até para mim. Meu marido (sim, sou uma autista casada e que olha nos olhos, quem diria hein) era quem mais tomava as "patadas" nos momentos mais aleatórios, quando eu simplesmente estava exausta demais para medir minhas palavras. 

Então, num dia de conversa com um amigo, soube que ele tinha acabado de ser diagnosticado com nível 1 de suporte no TEA. Comentei que eu tinha umas atitudes que eu considerava estranhas e simplesmente puxei uma lista de "coisas que eu faço que provam que eu tenho um cérebro esquisito" no meu celular (sim, essa lista existe com esse nome no meu bloco de notas e no momento, ela tem 27 itens) e comecei a ler para ele. Lá pela metade da lista, depois de ele me confirmar que também fazia tudo aquilo (risos nervosos), me passou o contato da neuropsicóloga dele e me indicou que buscasse ajuda.

Encasquetei com isso e fui pesquisar. Vi que ele tinha razão. Busquei a neuropsicóloga e, depois de uns 3 meses de processos avaliativos, o diagnóstico de TEA veio. Ainda estou no aguardo do laudo em que terei certeza do nível de suporte, das demais comorbidades e outros possíveis transtornos. Mas foi assim que cheguei aqui.

Então, meu(minha) espectral leitor(a), caso tenha chegado até aqui comigo e se interessado nessa tragicomédia que é a minha vida, te convido a pegar um cafezinho e sentar comigo para esperar os próximos capítulos. Eu não sei o que vai acontecer daqui para frente. Não sei nem se esse blog terá uma frequência ou o que efetivamente direi a cada postagem. Sei apenas que será um lugar para dividir meus devaneios, lamúrias, descobertas e alegrias dessa vida, louca vida.

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